terça-feira, 24 de junho de 2014

BATMANGÁ


Em 1966, foi lançada a série de TV Batman, com Adam West e Burt Ward.  As crianças adoraram, enquanto que alguns fãs mais velhos do personagem ficaram revoltados com o tratamento cômico dado ao seu herói.  Hoje, o antigo seriado é um clássico, amado de forma quase unânime.
O lançamento de Batman na TV detonou uma onda de batmania.  Falava-se que era a época dos três “B”s: Bond (007), Beatles e Batman. Enquanto os quadrinhos originais eram traduzidos em diversos países, o Japão foi mais longe: obteve uma licença para produzir histórias originais, escritas em desenhadas especialmente para o público japonês.   Os quadrinhos foram publicados de abril de 1966 a Maio de 1967 na revista Shōnen King, com roteiro e arte de Jiro Kuwata.  O assunto ficou esquecido desde então.
Décadas depois, o designer e escritor Chipp Kidd conheceu o colecionador Saul Ferris, que possui uma grande coleção de objetos do Batman não produzidos nos EUA, incluindo os mangás de Jiro Kuwata.  Vendo aquele material inusitado, Kidd consultou a DC Comics a respeito da possibilidade de lançá-lo em livro.  A editora nem tinha mais registros do licenciamento para o Japão, mas autorizou o lançamento. 
A produção do livro é bem interessante: os mangás são apresentados com resolução fotográfica, mostrando a cor e a textura originais.  Além disso, há fotos de vários objetos de Batman produzidos no Japão – todos da coleção de Saul Ferris – tais como bonecos, máscaras e veículos.    
Os desenhos de Jiro Kuwata não são no estilo tipicamente associado ao mangá, mas também não são no estilo ocidental: consistem em um cruzamento de estéticas e referências.
Só nos resta agradecer a Chipp Kidd, pela iniciativa e pelo design; a Geoff Spear, pelas fotografias; e a Saul Ferris, por seu zelo de colecionador.  
O meu exemplar já está aqui, na minha biblioteca.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Flash, o Gordon

No início da década de 1930, nos EUA, os quadrinhos eram publicados apenas em jornais.  Não havia, ainda, gibis.  Estes começaram em 1933, e não traziam material inédito: apenas compilavam tirinhas que já haviam sido publicadas. 
Flash Gordon foi lançado nos jornais em 1/7/1934 (um domingo) e era espetacular: os desenhos de Alex Raymond eram primorosos e elegantes; os personagens pareciam humanos, os cenários alienígenas eram criativos, e os equipamentos de estilo futurista pareciam ser capazes de funcionar de verdade.    Raymond continuou escrevendo e desenhando as histórias até 1943 e, a partir de então, o título saiu de suas mãos, vindo a ser transferido sucessivas vezes para diversos artistas: Austin Briggs, Mac Raboy, Dan Barry, Harry Harrison e muitos outros.
Desde 1936, a revista King Comics já vinha republicando o material que saíra nos jornais, e  várias outras editoras fizeram o mesmo, sempre com material repetido.  Foi só em 1/9/1966 que saiu algo inédito: a Flash Gordon n° 1, ilustrada pelo genial Al Williamson (que depois fez a capa da n°3 e ilustrou os n°s 4 e 5).  Essa revista é, possivelmente, uma das mais legais do mundo (faltam-me palavras), e Williamson foi, na minha opinião, o único artista capaz de chegar à altura de Alex Raymond com esse personagem.
Em 2009, foi lançado um livro intitulado Al Williamson's Flash Gordon: A Lifelong Vision of the Heroic, documentando o fascínio de Williamson pelo personagem.  Atualmente, a edição está esgotada, mas vale a pena ser procurada em sebos pela Internet. 
Em 2010, a famosa editora Dark Horse lançou uma edição encadernada dos gibis de Flash Gordon desenhados por Al Williamson: é o segundo volume de uma série dedicada ao personagem, e a qualidade de impressão é muito boa.  É a melhor coisa na falta dos originais, que devem ser caríssimos e difíceis de encontrar.   


    

terça-feira, 17 de junho de 2014

O Melhor Gibi do Mundo

Os colecionadores são uma espécie bem interessante e cheia de manias.  No campo da música, discutem quais seriam os melhores discos de todos os tempos: o melhor saxofonista, a melhor cantora, a melhor primeira faixa...  No campo dos quadrinhos, discutem-se os melhores gibis.  Mas o que seriam “os melhores”?  Se pensarmos nos mais importantes para a história da mídia dos quadrinhos, poderíamos falar na Action Comics n°1 (junho de 1938), que contém a primeira aparição do Superman e, de certa forma, foi a “mãe” de todas as revistas de super-heróis.  Sem o surgimento e o sucesso desse personagem, o panorama dos quadrinhos poderia ter sido diferente.  Uma muito marcante foi a Amazing Fantasy n°15 (agosto de 1962), com a primeira aparição do Homem-Aranha. 
 
A minissérie Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, publicada em 12 edições entre 1986 e 1987, traz duas gerações de personagens complexos envolvidos numa trama complicada (e repleta de enredos secundários), ambientada numa história alternativa do mundo onde os EUA haviam vencido a Guerra do Vietnã e era iminente uma guerra nuclear global.  Watchmen foi a obra definitiva que transformou os quadrinhos em divertimento para adultos.
Mais ou menos na mesma época, saiu outra minissérie que redefiniu a forma de pensar em super-heróis: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight Returns), de Frank Miller, publicada de fevereiro a junho de 1986.  Batman, mais velho e afastado do combate ao crime, decide voltar à ação.  É uma obra-prima dos quadrinhos, que continua sempre atual e merece ser lida várias vezes.

Um bom critério para selecionar uma revista como relevante é verificar se a publicação reúne elementos importantes de um personagem e serve como apresentação a novos leitores.  Eu gosto muito de Batman n° 251 (Setembro, 1970), que pode ser encontrada no Volume 3 da compilação “Batman ilustrated by Neal Adams”, que reúne os trabalhos desse grande desenhista em sua passagem pelos títulos do morcego.  O n°251 reúne uma capa icônica, um inimigo clássico (o Coringa), e o tradicional elemento de “herói preso numa armadilha”.  Além de tudo, mostra que Batman não é infalível.  Embora a história seja um pouco ingênua para os padrões atuais, contém todos os elementos de um clássico dos quadrinhos.


Ficam aqui algumas dicas para os iniciantes.  Todo esse material é bastante fácil de se conseguir pela Internet, em sebos e lojas de quadrinhos. 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Homem Comum, Homem Aranha


O apelo do Homem-Aranha sobre o público jovem parece eterno.  Desde seu primeiro aparecimento na revista  Amazing Fantasy n°15 (agosto de 1962), a criação de Stan Lee (roteiro) e Steve Ditko (desenhos)  cativou os corações dos leitores – e é fácil de entender por que.  Peter Parker, o personagem principal, era um jovem estudante magro e inseguro, cheio de problemas, que admirava as garotas à distância e sofria zombarias dos valentões da escola.  Depois de um acidente com radiação, ele adquire poderes sobre-humanos e, no princípio, decide utilizá-los apenas em benefício próprio, até que uma grande tragédia faz com que ele tome contato com suas responsabilidades - daí a icônica frase, decorada por todos os fãs: “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.
O personagem, portanto, não era um cientista, um agente secreto, um astronauta ou um policial, mas apenas um garoto comum – o que facilitou a identificação com o público.  Além disso, ao contrário de outros heróis, a máscara do Homem-Aranha cobria o rosto todo, de modo que qualquer jovem, independendo de sua origem étnica, poderia se ver naquele uniforme.  Numa época de considerável segregação racial, seria difícil que um rapaz negro se identificasse com o louro Thor, mas todos poderiam se ver com o traje enigmático de Peter Parker.    
Além de tudo, Peter precisava se preocupar com sua Tia May, uma senhora já bem idosa, com diversos problemas de saúde.  Em várias ocasiões, o herói precisava conciliar sua vida de estudante, sobrinho, namorado e fotógrafo com suas atividades de combate ao crime.
Muitos jovens tímidos e inseguros gostariam de ter um poder secreto: algo que compensasse as frustrações do cotidiano e a falta de amigos na escola.  Certamente, seria fascinante pensar: “vocês podem achar que não sou ninguém, mas eu sei que sou importante.”  O irônico é que todos nós somos importantes, de um jeito ou de outro.  E, além disso, todos temos alguma habilidade, algum talento, mesmo que não o tenhamos descoberto.  É possível que, dentro de cada garoto tímido exista o potencial para o surgimento de um cientista, um músico, um atleta, um pai carinhoso.

E você, leitor?  Já descobriu o seu “poder” ?   
A primeira aparição do Homem-Aranha.
Amazing Fantasy n°15 (agosto de 1962)
Capa de Jack Kirby (desenho) e Steve Ditko (arte-final).


Este texto será publicado, em breve, na minha coluna no portal Por Dentro da Mídia.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Neal é uma Lenda Viva


Neal Adams nasceu em 15 de junho de 1941.  Numa entrevista ao cineasta Kevin Smith[1], ele falou sobre as alegrias de sua infância - incluindo sua grande habilidade para o desenho - e também sobre as dificuldades financeiras de sua juventude, quando às vezes ele e a mãe não tinham nem o suficiente para a alimentação.  Sabendo, desde cedo, que uma Universidade estaria fora de questão por motivos financeiros, ele cursou o ensino médio numa escola técnica: a School of Industrial Art, onde aperfeiçoou suas técnicas de desenho e aprendeu pintura e ilustração, muito usadas na publicidade – ainda mais naquele tempo.  Ao tentar uma chance nos quadrinhos, foi rejeitado pela DC e, em 1960, arranjou trabalho com a Archie Comics.  Depois passou a trabalhar com publicidade  e, em 1962 desenhou tiras de jornal para a série Ben Casey (adaptação de um personagem de TV).  Em 1967, já estava fazendo capas para a DC em títulos como Action Comics (que era o carro-chefe da editora) e  Superman's Girl Friend, Lois Lane, além de desenhar o Desafiador (Deadman) e fazer trabalhos para a Marvel, como a capa de X-Men 63, de dezembro de 1969. 

Uma das contribuições de maior impacto de Neal Adams para os quadrinhos foi sua abordagem do Batman, em parceria com Denny O'Neil. 
Uma das capas mais célebres do artista.
Batman n° 251 - Setembro, 1970
Arte: Neal Adams

Naquele tempo, o grande público via o personagem sob o viés humorístico da série de TV, que fez grande sucesso, mas Neal e Denny resolveram voltar às origens mais sombrias do “cruzado de capa”.   O lançamento de Detective Comics 395 (janeiro de 1970) foi um marco na história dos quadrinhos por ser a estreia de Neal no personagem.  

Mais ou menos na mesma época, Neal Adams e Denny O’Neil reuniram os dois heróis “verdes” da DC: Lanterna Verde e Arqueiro Verde - e iniciaram uma das mais relevantes sagas dos quadrinhos.  A revista Green Lantern passou a chamar-se Green Lantern/Green Arrow a partir do n° 76, e foi com esse título que veiculou as aventuras dessa dupla improvável: o conservador Lanterna e o revolucionário Arqueiro.  Juntos, os dois percorreram os Estados Unidos, frequentemente discutindo por causa de suas ideologias conflitantes.   As histórias lidavam com temas controvertidos, como o perigo do uso de drogas e o racismo.  Costuma-se dizer que foi com essa série que os quadrinhos chegaram à maturidade. 
Green Lantern/Green Arrow n°76
Abril de 1970
Arte de Neal Adams
Sobretudo, Neal Adams foi um dos grandes defensores dos interesses de Jerry Siegel e Joe Shuster – os criadores do Superman, que venderam os direitos sobre o personagem em 1938, quando ainda eram bem jovens, e foram vendo os empresários do ramo fazerem fortunas com sua criação enquanto eles próprios ficaram em séria situação financeira.  Na década de 70 do século passado, a dupla estava na faixa dos sessenta anos; Siegel era empregado dos Correios e Shuster, praticamente cego, mal conseguia trabalhar e vivia no apartamento do irmão[2] (ou num asilo, conforme a Wikipedia).  Não tinham assistência médica ou aposentadoria assegurada, e Superman rendia milhões.  Não receberam nada pelo filme Super-Homem (1978), enquanto o ator Marlon Brando recebeu 3,7 milhões de dólares por duas semanas de filmagem, e o escritor Mario Puzo ganhou 250 mil dólares pelos dois primeiros rascunhos do roteiro.  O personagem criado há tanto tempo dava dinheiro a muita gente, mas não a seus criadores.  O futuro parecia sombrio.  No entanto, graças ao esforço conjunto de várias pessoas do ramo – sempre com grande apoio e militância de Neal Adams – Siegel e Shuster conseguiram celebrar um acordo com os titulares dos direitos sobre o personagem e puderam passar de forma confortável seus últimos anos.

Por essas e por outras, Neal Adams é uma lenda viva dos quadrinhos.





[1] Podcast Fatman on Batman – números 54 e 55.
[2]JONES, Gerard. Homens do Amanhã. São Paulo: Conrad, 2006.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O “X” da Questão

X-Men n° 1
Setembro de 1963
Capa de Jack Kirby e
Sol Brodsky


Na década de 1960, os leitores de quadrinhos foram apresentados a personagens que ganharam superpoderes por causa de acidentes - como Peter Parker (Homem-Aranha), Matt Murdock (Demolidor) e Bruce Banner (Hulk).   Stan Lee, co-criador de todos esses personagens, pensou então em criar heróis que já nasceram com superpoderes. Assim começa a emaranhada história dos X-Men.

A revista original (X-Men n°1) foi lançada em setembro de 1963, fruto de mais uma parceria entre Stan Lee e Jack Kirby, e teve histórias inéditas até o n°66.  As edições de n° 67 (dezembro de 1970) ao n° 93 (junho de 1975) trouxeram reprises.   Muitos anos depois (entre dezembro de 1999 e setembro de 2001) o excelente John Byrne criou a série limitada The Hidden Years, contando o que estava acontecendo à equipe durante aquele período. 

Giant-Size X-Men n°1
Maio de 1975
Capa de Gil Kane, Dave Cockrum
e Danny Crespi
Voltemos à década de 1970.  Em maio de 1975 saiu Giant-Size X-Men #1, inaugurando uma nova fase, e um jovem chamado Chris Claremont começou a escrever a partir da edição #94 (julho de 1975).  A expressão “Uncanny” começou a ser utilizada na capa no n°114, e o título foi oficialmente adotado no n°142.  Todas as edições anteriores foram retroativamente designadas Uncanny X-Men, para fins de catálogo (e confusão de nossas cabeças).

Chris continuou  trabalhando na revista  até o n°279 (agosto de 1991). Foram cerca de 16 anos ininterruptos à frente do título, fazendo com que o autor entrasse para o livro dos recordes.  Dois meses depois, em outubro de 1991, foi lançado um novo título chamado simplesmente X-Men (sem interrupção do título tradicional, Uncanny X-Men), com roteiros de Chris Claremont e arte de Jim Lee.  Chris saiu após escrever os três primeiros números.  De 2001 a 2004, essa revista (X-Men) passou a se chamar New X-Men e em fevereiro de 2008, tornou-se  X-Men: Legacy .

Claremont voltou ao universo dos X-Men em julho de 2001, com X-Treme X-Men n°1.  Ele escreveu todos os 36 números dessa nova série, que perdurou até 2004.  Entre 2012 e 2013, a série foi relançada com roteiros de Greg Pak.

Em julho de 2004, Chris Claremont voltou novamente a Uncanny X-Men, e continuou a escrever até o n° 473 (agosto de 2006). O número final da revista foi o 544, de outubro de 2011.    Encerrava-se o chamado “Volume 1” do título.

De janeiro a dezembro de 2012, foi publicado o “Volume 2”,  com roteiros de Kieron Gillen e, em janeiro de 2013, Uncanny foi relançada como parte da iniciativa Marvel NOW, e continua até hoje, em maio de 2014.  É o chamado “Volume 3” da revista. 

De todo esse material, o de Claremont chama atenção por causa da longa relação entre o autor e os personagens – os quais ele soube desenvolver e explorar como poucos.   Foi dessa fase que saíram alguns dos momentos mais marcantes dos X-Men, como os ciclos de histórias que ficaram conhecidos como “A Saga da Fênix Negra”, “Dias de Um Futuro Esquecido” (que agora foi adaptada para o cinema), e “A Queda dos Mutantes”.  Em contrapartida, surgiu uma dificuldade: as histórias foram ficando tão complexas, tão cheias de idas e vindas, com tantas referências internas, que corriam o risco de afastar novos leitores – ainda mais naqueles tempos sem Internet, onde o máximo que alguém poderia fazer para se atualizar era tentar comprar números anteriores numa loja de gibis (que até hoje são raras no Brasil) ou perguntar aos amigos o que estava acontecendo.  

Um exemplo que deixa marcas até hoje é a morte de Jean Grey, a Garota Marvel, mostrada em X-Men 137 (dezembro de 1980). Alguns anos depois, surge uma sósia (na verdade, clone) da personagem: é Madelyne Prior (Uncanny X-Men 168, de abril de 1983).  A própria Jean reaparece em Fantastic Four 286, de janeiro de 1986, onde ficamos sabendo que ela não havia morrido.  Por fim, em New X-Men 150 (fevereiro de 2004), Jean morre de maneira definitiva - até o momento...

Essas reviravoltas são comuns quando se trata de X-Men - sendo que, 25 anos depois de Madelyne cruzar o caminho dos heróis mutantes pela primeira vez, ela aparentemente volta no n° 503 de Uncanny X-Men (dezembro de 2008), envolta em muita especulação do público quanto ao fato de ser a “verdadeira” personagem ou alguma outra entidade.    Falar sobre Jean Grey e Madelyne Prior para alguém que esteja começando agora a ler quadrinhos pode levar tempo. 

Outro exemplo interessante: em 1986 surgiu o título X-Factor, com uma equipe formada pelos X-Men originais (Fera, Anjo, Homem de Gelo, Cíclope e Garota Marvel), que foi agregando outros personagens.  E, em 2005, foi lançado um novo ­X-Factor, que agora era uma espécie de agência de detetives mutantes, com personagens diferentes.


É por essas e por outras que a leitura de gibis é um hobby, mais do que a simples atividade de ler.  É como acompanhar os jogos de um time, as trocas de técnicos e jogadores, a atuação dos árbitros e sem perder de vista o plano geral do campeonato.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Sobre os quadrinhos

Os quadrinhos não são um gênero de entretenimento: são, na verdade, uma mídia, um meio de divulgação – assim como o teatro, o cinema e a televisão.  Dizer “eu gosto de quadrinhos” é como dizer “eu gosto de teatro”: estamos falando de um veículo, e não de um estilo em si.  Esse veículo pode servir ao drama, à aventura, a pornografia, à comédia ou a qualquer outro gênero.

O americano Will Eisner (1917-2005), artista genial e sensível, mostrou que os quadrinhos  prestam-se a narrativas poéticas, dramáticas e profundas.  O sucesso das aventuras do justiceiro Spirit (desenhadas de forma magistral e inovadora) abriu caminho para as obras dramáticas que consagraram Eisner como um grande autor – a exemplo daquelas reunidas na excelente antologia New York, que mostra a solidão, os desencontros e os anseios de moradores de uma cidade grande.  

O canadense Guy Delisle chega às raias do estudo antropológico com álbuns sobre suas viagens, onde ele narra as diferenças culturais que encontrou ao redor do mundo.  Os desenhos aparentemente simples mas altamente expressivos combinam com a atmosfera das histórias e funcionam como um perfeito complemento para a narrativa.
O maltês-americano Joe Sacco usa os quadrinhos como forma de jornalismo.  Seus temas recorrentes são a Guerra da Bósnia e os conflitos sociais, políticos e culturais entre palestinos e árabes no Oriente Médio.   Sacco ganhou diversos prêmios, como o American Book Award de 1996 pelo álbum Palestina, onde narra suas viagens por Israel, Cisjordânia e a Faixa de Gaza em 1991 e 1992.  O livro retrata suas conversas com os habitantes da região - principalmente palestinos que viviam em péssimas condições.  São pessoas comuns – não necessariamente terroristas ou políticos – que estavam vivendo na pobreza, prejudicados pela burocracia e sentindo-se injustiçados. 

Outro exemplo que não poderia faltar é do também americano Art Spiegelman, ganhador do prêmio Pulitzer por Maus (“camundongos”, em alemão no original): uma história do holocausto, contada pelo pai do autor, que foi sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz.  Na história, os judeus são representados como camundongos, e os alemães, como gatos.  Apesar do toque aparentemente infantil, a trama é pesada e mostra todo o sofrimento, os conflitos, o desespero, a dor dos perseguidos, os meios utilizados para a sobrevivência – e até mesmo as marcas que esse processo deixou no pai do autor. 

Jean Giraud (1938-2012) foi um dos grandes quadrinistas franceses e, possivelmente, um dos melhores do mundo.   Ilustrou a famosa série Blueberry, ambientada no Velho Oeste, e, sob o pseudônimo de Moebius, produziu uma vasta obra de fantasia e ficção científica – que, felizmente, vem sendo publicada no Brasil pela Editora Nemo em excelentes edições encadernadas.  Em colaboração com Stan Lee, criou uma minissérie vencedora do Prêmio Eisner sobre o Surfista Prateado.     Seu talento foi admirado por cineastas como o italiano Federico Felini (diretor do clássico La Dolce Vita) e o inglês Ridley Scott (de Gladiador, Cruzada e Prometheus), além de escritores como William Gibson (autor de Necromancer, um marco da ficção científica).

Quadrinhos podem ser coisa séria.  Basta que o leitor abandone o preconceito.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

52 Anos de Quarteto Fantástico


1961.  A chamada “corrida espacial” estava em andamento: americanos e russos (ou melhor: soviéticos) disputavam a supremacia em termos de realizações espaciais.  Foi o ano do voo histórico de Yuri Gagarin, que se tornou o primeiro homem a viajar pelo espaço.
É nesse contexto que foi lançada a importantíssima revista Fantastic Four n°1, que apresentou ao mundo quatro personagens que tentaram ser os primeiros seres humanos a chegar ao espaço.  Os heróis sabiam da necessidade de mais pesquisas sobre os misteriosos “raios cósmicos” antes do lançamento, mas queriam ter a certeza de chegar ao espaço antes dos commies (termo pejorativo usado para designar comunistas.  Algo como “comunas”, em português).
Ironicamente, a revista foi lançada em novembro de 1961.  O voo de Gagarin ocorreu em 12 de abril daquele ano.   Naturalmente, quando Stan Lee e Jack Kirby produziram a obra, ninguém tinha ainda chegado ao espaço, mas a publicação foi ultrapassada pelos fatos.  Na prática, isso não fez muita diferença: a revista revolucionou o modo de contar histórias de super-heróis.
A Marvel era ainda um nome novo no mercado.  Embora a empresa fosse fruto da Atlas Comics (que, por sua vez, vinha da Timely Comics, fundada em 1939), os primeiros títulos com a “marca” Marvel foram editados poucos meses antes (Journey into Mystery n°69 e Patsy Walker 95, ambos datados de junho).  Nada de extraordinário até então - mas, com a estreia do Quarteto Fantástico, iniciava-se uma nova era para os quadrinhos. 
Os heróis, longe de serem perfeitos, eram como gente de carne e osso, com traços pouco invejáveis: Sue mostra um lado manipulador ao chamar Ben de covarde para convencê-lo a embarcar no foguete; Ben, por sua vez, é grosseiro e irritável, e chega a agredir Reed fisicamente.   Além disso, os personagens fazem coisas que trazem consequências ruins: basta dizer que o calor das chamas de Johnny (o Tocha Humana) incendeia aviões de caça americanos, e que Ben causa um acidente de trânsito ao sair do subterrâneo no meio de uma rua.
Até mesmo o vilão – o Toupeira – tinha um lado bem humano: era um homem feio e patético que decidiu isolar-se da sociedade por ter sido desprezado e humilhado. 
A narrativa  era não –linear e pouco convencional: contém um longo flashback e eventos que acontecem simultaneamente.

Todos esse fatores contribuíram para fascinar o público e chamar a atenção para a Marvel, que começava a firmar as características de uma editora moderna, inovadora e diferente.  O nome Marvel tornou-se uma verdadeira grife no mundo editorial, como se fosse uma Lacoste dos quadrinhos.  Consolidando essa posição, a empresa lançou, no ano seguinte, personagens como o Hulk (que estreou em The Incredible Hulk n° 1, de maio de 1962), Thor (Journey into Mystery n° 83, de agosto de 1962) e o Homem-Aranha (Amazing Fantasy n°15, de agosto de 1962).  Muitos outros personagens se seguiram, mas foi com o Quarteto que surgiu um novo conceito em termos de super-heróis.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sopa de Letrinhas

Quase todo mundo já sabe que o genial Stan Lee gostava de criar personagens com iniciais repetidas.  Como ele próprio já explicou em diversas ocasiões, esse método facilitava seu trabalho porque, ao recordar um nome, ficava mais fácil lembrar do outro.  Essa repetição já foi tema de piadas no seriado The Big Bang Theory e não é nenhuma novidade.  De toda forma, achei que seria interessante listar alguns desses personagens - destacando que, em alguns, a repetição só ocorre em inglês, como no caso de Black Bolt.
Os nomes colocados entre aspas são apelidos, como “Pepper” (pimenta) Potts, a espevitada secretária de Tony Stark.

BETTY BRANT (do Clarim Diário)
BLACK BOLT / BLACKAGAR BOLTAGON (o Raio Negro do grupo dos Inumanos)
BRUCE BANNER (o Hulk)
CURT CONNORS (o Lagarto)
DUM DUM DUGAN (soldado que serviu sob as ordens de Nick Fury)
FANTASTIC FOUR (o Quarteto Fantástico)
FIN FANG FOOM (o monstro verde que apareceu primeiramente em Strange Tales #89 (outubro de 1961)
GREEN GOBLIN (o Duende Verde)
GREY GARGOYLE (o Gárgula Cinzento)
“HAPPY” HOGAN (assistente de Tony Stark)
J. JONAH JAMESON (diretor do Clarim Diário)
LIVING LASER (apresentado em Avengers n° 34, de novembro de 1966)
MATT MURDOCK (o Demolidor)
MOLTEN MAN (Magma: inimigo e, depois, amigo do Homem-Aranha)
OTTO OCTAVIUS (Dr. Octopus)
“PEPPER” POTTS (a secretária de Tony Stark)
PETER PARKER (o Homem-Aranha)
RANDY ROBERTSON  (filho do editor do Clarim Diário, Joseph “Robbie” Robertson”)  Apareceu primeiramente em The Amazing Spider-Man #67 (dezembro de 1968)
REED RICHARDS (o Sr. Fantástico)
SAMUEL “HAPPY SAM” SAWYER (assim como Dum Dum Dugan, Samuel Sawyer apareceu em Sgt. Fury and his Howling Commandos” n°1)
SCOTT SUMMERS (o Cíclope dos X-Men)
SILVER SURFER (o Surfista Prateado)
SINISTER SIX (o Sexteto Sinistro)
STEPHEN STRANGE (o Dr. Estranho)
SUSAN STORM (a Mulher Invisível)
WARREN WORTHINGTON III (o Anjo dos X-Men)

Alguns personagens até tinham outros nomes que fugiam à regra da repetição, mas esses nomes raramente eram mencionados: é o caso de Otto Gunther Octavius, Stephen Vincent Strange e Virginia “Pepper” Potts.

Stan Lee é um gênio que influenciou inúmeras vidas ao redor do mundo com seus personagens instigantes e profundamente humanos.  Nas décadas de 1960 e 1970, foi um verdadeiro diplomata dos quadrinhos, dando palestras em universidades e divulgando essa mídia para além das fronteiras usuais.
Mesmo aos 90 anos, continua cheio de energia: participa de convenções de quadrinhos; tem um canal no Youtube (Stan Lee's World of Heroes); aparece ocasionalmente em programas de TV (como Comic Book Men, de Kevin Smith, e The Big Bang Theory), além de fazer pequenas aparições nos filmes da Marvel.  Seu bom humor e sua empolgação com o trabalho são admiráveis.
Longa vida a Stan Lee, o mestre dos quadrinhos!

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

As Faces da Fúria

Maio de 1963: estreia de Nick Fury.
Quando comecei a acompanhar as aventuras de Nick Fury, ele tinha cabelo grisalho, tapa-olho, roupa colante, patente de coronel e viva na época atual.  Era, portanto, diferente do conceito original dos mestres Stan Lee e Jack Kirby. 
Em sua estreia na revista Sgt. Fury and His Howling Commandos (maio de 1963), o herói era um sargento em ação na Segunda Guerra Mundial.  Tinha cabelos castanhos, enxergava bem com os dois olhos e, naturalmente, vestia-se como um sargento comum.  A aventura inaugural é instigante e envolve o resgate de um chefe da Resistência Francesa capturado pelos nazistas.  Pode ser encontrada na excelente coleção Marvel Essential, que publica volumosas coletâneas de quadrinhos por um preço relativamente baixo (embora em preto e branco).


Edição da série "Marvel Essential".
Reúne os números 1 a 23 de Nick Fury and his Howling Commandos,
além da edição anual n°1

Com o tempo, o personagem foi se modificando até alcançar as características que ficaram tão familiares para os leitores da minha geração.  As mudanças têm início quando Fury sofre graves ferimentos ao final da guerra na Europa e recebe um medicamento experimental que, além de curá-lo, prolonga sua vida.  Com o passar do tempo, o herói vai trabalhar no Office of Strategic Services, e continua no mesmo órgão quando este se transforma na Central Inteligence Agency (CIA).  Devido ao sucesso de suas missões de espionagem na guerra da Coreia, o sargento recebe uma promoção de combate e torna-se tenente.  Com o tempo, chega a coronel e torna-se diretor da S.H.I.E.L.D. – a fictícia agência do Universo Marvel.  A sigla, em inglês, corresponde a Supreme Headquarters, International Espionage, Law-Enforcement Division, depois modificada para Strategic Hazard Intervention Espionage Logistics Directorate.
Quando a Marvel criou o universo Ultimate, com versões modernizadas de seus personagens mais famosos, Nick Fury recebeu uma revisão radical: em vez de um homem branco, grisalho e com a barba por fazer, surge um homem negro, calvo e de cavanhaque, inspirado na aparência do ator Samuel L. Jackson.  Essa versão, mais moderna e carismática, foi a escolhida para aparecer em diversos filmes da Marvel, interpretada pelo próprio Jackson, que fez uma discreta aparição depois dos créditos finais dos filmes Homem de Ferro (2008), Thor (2011) e Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), além de ter participações maiores nos filmes Homem de Ferro 2 (2010) e Os Vingadores (2012).
Surgiu, então, um problema: os filmes poderiam atrair muitos leitores para as revistas Marvel, mas os novatos que comprassem as revistas da cronologia principal (que excluem o universo Ultimate) possivelmente iriam estranhar um Nick Fury tão diferente daquele do cinema.  Como fazer para unificar a aparência do personagem?
A solução foi criativa: surge o sargento Marcus Johnson, um Ranger do exército americano servindo no Afeganistão que, no final das contas, era Nicholas Fury Jr. – filho do "original", e com o mesmo visual do Nick Fury do cinema e do universo Ultimate.   O personagem é apresentado ao público na minissérie Battle Scars, lançada de janeiro a junho de 2012 nos Estados Unidos, e em janeiro de 2013, no Brasil, em volume único (Avante, Vingadores! 57).
É o caso do texto que inspira o filme que inspira o texto...

  

domingo, 8 de setembro de 2013

Uma sugestão para novatos no universo do Batman


A confusa cronologia das histórias em quadrinhos pode desanimar novos leitores.  São tantas reviravoltas no decorrer dos anos que fica difícil saber onde estamos pisando: personagens morrem e voltam, cidades são destruídas e reconstruídas e universos inteiros são reorganizados.
Além disso, é comum que as histórias façam constantes referências a fatos ocorridos em edições anteriores, ou até em outros títulos. Para complicar ainda mais, praticamente todas as histórias formam "arcos": longas sagas dividas em capítulos. Felizmente, as revistas incluem um resumo do que já aconteceu nos números anteriores, mas mesmo assim o leitor novato pode ficar com dúvidas
Por isso tudo, fiquei me perguntando: "se alguém quisesse começar a ler uma revista de super-heróis, qual seria a história ideal?" 
A meu ver, no caso do homem-morcego, essa história seria “Silêncio”. 
Trata-se de um arco publicado nos Estados Unidos de dezembro de 2002 a setembro de 2003 na revista Batman.  No Brasil, saiu de agosto de 2003 a julho de 2004 na revista Batman da editora Panini, e numa edição encadernada, em 2006.
O roteiro é do aclamado Jeff Loeb, de Batman: Dia das BruxasDemolidor: Amarelo, Hulk: Cinza e Homem-Aranha: Azul. A trama é bem construída e aproveita praticamente todos os elementos importantes da mitologia do Batman até aquele momento.  O elenco de personagens é enorme:  entre os vilões, temos Hera Venenosa, Crocodilo, Coringa, Charada, Duas-Caras, Arlequina, Ra's Al Ghul, Cara-de-Barro, Mulher-Gato e Espantalho.  Entre os heróis, Superman, Alan Scott (o Lanterna Verde da Era de Ouro) e até Krypto, o super-cão.
Os desenhos são do mega-astro Jim Lee – possivelmente um dos desenhistas mais famosos e influentes das últimas décadas.  Não sou grande fã de seu estilo (e sou minoria, provavelmente), mas ele fez um ótimo trabalho em Silêncio:  Gotham está mais sombria e chuvosa do que nunca, com becos escuros e dirigíveis ancorados em arranha-céus.
A arte-final é de Scott Williams, que já trabalhou em X-Men, Superman, Grandes Astros: Batman e Robin, entre outros.
Existem duas boas edições importadas: uma “normal”, e outra intitulada Hush: Unwrapped, que apresenta os desenhos a lápis de Jim Lee sem colorização e sem arte-final.  As únicas cores são dos textos ou dos efeitos sonoros.  A edição “normal” é muito mais bonita e permite uma maior imersão do leitor na história, mas é bastante interessante ler a Unwrapped num segundo momento.   






quarta-feira, 21 de agosto de 2013

The Walking Dead: os quadrinhos que deram origem à série de TV

Não é novidade que os quadrinhos de The Walking Dead estão entre os melhores lançamentos dos últimos anos, além de terem se transformado em fenômeno editorial. 
Com o lançamento da série de TV, a saga de Rick Grimes foi levada a uma plateia ainda maior.  Por sinal, os produtores do seriado foram brilhantes ao decidir fazer uma adaptação que não segue passo a passo a narrativa dos quadrinhos: assim, os leitores têm surpresas quando assistem aos episódios, e os telespectadores se surpreendem ao ler as revistas. Só lamento que muitas das pessoas que acompanham a versão televisiva não tenham se interessado em ler o material original.
De qualquer maneira, o interessante (em ambas as versões) é que os zumbis têm um papel secundário, pois o que é realmente importa é o drama humano: as relações entre os personagens e seu comportamento numa época de desespero.
Gosto muito dos textos de Kirkman e do trabalho da equipe de arte: Charlie Adlard (desenhos, arte-final e capas) e Cliff Rathburn (tons de cinza).   
Minha única crítica é que as histórias, por vezes, descambam para o que chamo de “pornografia da violência” – ou seja: longas sequências de violência, como a vingança de Michone contra o Governador (The Walking Dead n°33).  A meu ver, não havia necessidade de mostrar, passo a passo, a mutilação do sujeito.  Sequências assim se repetem ocasionalmente e me parecem uma tentativa de atrair leitores que precisam desse tipo de estímulo - mas isso não tira o mérito dessa excelente obra em quadrinhos.  Cada edição é impossível de largar antes do final.   
No Brasil, o leitor tem duas opções: os encadernados que reúnem diversos números, publicados com o título Os Mortos-Vivos; e as revistas mensais, que mantêm o nome em inglês (The Walking Dead).  Como as histórias têm sequência, o leitor deve começar, preferencialmente, da revista número 1 ou do primeiro encadernado, que reúne os primeiros números.



sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Quadrinhos que nos marcam


Algumas leituras nos marcam de verdade.  
Li "The Fury of Iron Fist!" quando tinha cerca de 10 anos, e a história me deixou perturbado. Infelizmente não tenho mais a revista, mas tenho a versão em inglês publicada em The Essential Iron Fist - um daqueles encadernados da Marvel com papel de jornal e centenas de páginas.    
Basicamente, é a origem do Punho de Ferro.  
Daniel Rand passou a juventude sendo educado e treinado na cidade mística de K'un-Lun, como também se deu com seu falecido pai.  Quando estava prestes a enfrentar o desafio final do treinamento, ele começa a refletir sobre sua vida.  A partir daí, a história fica alternando entre o presente e infância do personagem.  
Daniel, ainda criança, viaja com seu pai,  Wendell; sua mãe, Heather; e o amigo da família e sócio de seu pai, Harold Meachum.  O grupo caminhava por uma trilha inóspita e perigosa, cheia de neve, procurando K'un-Lun.  
As coisas começam a degringolar quando os quatro viajantes estão atravessando uma estreita ponte natural, coberta de gelo.  Daniel escorrega, arrastando sua mãe, que, por sua vez, arrasta Wendell.  O cabo que une o casal se rompe, de forma que o menino e a mãe caem numa saliência rochosa alguns metros abaixo, enquanto o pai fica pendurado pelas mãos na ponte. Essa página tem um quadro que eu nunca esqueci: Harold, usando botas de alpinismo cheias de travas pontudas, pisa com violência nas mãos de Wendell, fazendo-o cair no abismo.  Com isso, o falso amigo espera ficar com a empresa só para si, e confessa seu amor por Heather - que, naturalmente, não estava querendo muita conversa com o assassino do marido.  O vilão vai embora, deixando a dupla para trás, contando que certamente morreriam.  
Apesar da situação desfavorável, mãe e filho escalam o paredão gelado e chegam a uma planície - mas o sossego dura pouco.  A dupla é perseguida por lobos até uma ponte de madeira e cordas sobre outro abismo.  As feras estão quase os alcançando, quando Heather se joga aos lobos para dar chances ao filho.  O garoto, parado no meio da ponte, vê a mãe sendo devorada e tenta correr na direção dela, quando subitamente é agarrado por mãos fortes.  Os lobos são abatidos a flechadas, e Daniel é levado para K'un-Lun, onde começa seu treinamento.
Quando cheguei nesse ponto, já estava meio que anestesiado por tanto drama.  O resto da história nem me importava mais. 
Este é um daqueles momentos dos quadrinhos que nos marcam para sempre.  E não era para menos: o roteiro é do grande Roy Thomas (que escreveu muitas das melhores histórias de Conan).  Os desenhos são de Gil Kane, criador do visual do Lanterna Verde da Era de Prata (Hal Jordan), o qual se manteve mais ou menos parecido desde 1959 até hoje.  Kane foi um artista prolífico, tendo ilustrado Superman, Batman, Conan, Demolidor, Homem-Aranha e muitos outros. 
Showcase n°22 - Outubro de 1959
Primeira aparição do Lanterna Verde moderno.
Arte de Gil Kane
Esse foi o meu gibi marcante.  Não lembro de nenhum outro que tenha me deixado tão impressionado na infância, a ponto de fazer-me recordar certos quadros pelo resto da vida.  Isso é o resultado da combinação de um bom roteiro com bons desenhos (aliás, aproveito a oportunidade para fazer uma homenagem a Gil Kane, falecido em 2000, aos 73 anos).

sábado, 27 de julho de 2013

Depenando o Gavião Negro

O Gavião Negro (Hawkman) é um dos personagens de história mais confusa no universo DC.  O próprio nome dado ao herói no Brasil inspira confusão, já que se trata de um homem branco usando um uniforme verde, vermelho e dourado.
É um personagem que, em sua longa história, passou por diversos ilustradores, mas ficou muito vinculado ao traço de Joe Kubert (1926-2012), um dos grandes ícones dos quadrinhos e responsável pelo visual da segunda versão do herói.

Originalmente criado por Gardner Fox e Dennis Neville durante a chamada "Era de Ouro" dos quadrinhos, o Gavião Negro apareceu pela primeira vez na revista Flash Comics #1, de janeiro de 1940. 
A trama começa quando o arqueólogo Carter Hall (por acaso, uma reencarnação do príncipe egípcio Khufu) descobre o “metal enésimo”: uma substância com propriedades extraordinárias, incluindo a anulação dos efeitos da gravidade.  Com esse material, Hall criou um par de asas que prendia às costas com correias.  Para completar o figurino, utilizou armas antigas do museu onde trabalhava e tornou-se um combatente do crime.  Acabou tornando-se presidente da Sociedade de Justiça e permaneceu em atividade até o lançamento de All Star Comics #57 (março de 1951). 

Cerca de dez anos depois, o personagem foi reciclado em The Brave and the Bold # 34 (fevereiro/março de 1961) por Gardner Fox (o roteirista original) e o mestre ilustrador Joe Kubert.  Agora, o Gavião Negro era o alienígena Katar Hol, uma espécie de policial do planeta Thanagar.  Seus poderes (para não dizer seu nome) eram bem parecidos com os de Carter Hall.  O extraterrestre veio para nosso planeta com sua esposa Shayera, perseguindo um criminoso espacial, e acabaram ficando por aqui.  Como se a história não estivesse confusa o sucifiente, Katar Hol decide mudar de nome para Carter Hall, e sua esposa adota o nome de Shiera Hall. 
Em meados da década de 1960, ficamos sabendo que o Gavião Negro original era um habitante da Terra 2 (um mundo paralelo, cuja linha de tempo é um pouco defasada em relação ao nosso universo), enquanto que Katar Hol vivia na Terra 1.  
No final da década de 1970, sobreveio a guerra Rann-Thanagar, e o casal thanagariano voltou ao seu planeta de origem para lutar contra seus inimigos. 
Em 1985, a DC tentou “organizar a casa”.  Seus inúmeros personagens, universos e histórias alternativas estavam praticamente impossíveis de acompanhar.  A série Crise nas Infinitas Terras surgiu para eliminar incompatibilidades, contradições, redundâncias e absurdos em geral.  As várias versões do planeta Terra foram fundidas numa única, mas isso criou ainda maiores confusões no caso do Gavião Negro.  Quem era ele, afinal de contas?  Acabou-se decidindo que o Carter Hall da Era de Ouro havia continuado na ativa. 
Na década de 1990, foi estabelecido que Carter Hall e Shiera vinham reencarnando desde o Antigo Egito, onde haviam encontrado o metal enésimo – que, por sua vez, veio de Thanagar.
A confusão não para por aí (acho eu...) mas já é o suficiente por enquanto.  Não vou nem falar das minisséries Hawkworld e Hora Zero, e das implicações das “Novas 52” sobre o personagem.

A DC lançou um encadernado bem interessante, com 688 páginas, reunindo as revistas HAWKMAN, #1-25 (maio de 2002 a abril de 2004), bem como material de JSA #56-58 e HAWKMAN SECRET FILES.  O roteiro é do prolífico Geoff Johns, um dos roteiristas mais importantes da editora nos últimos anos; e de James Robinson.  Entre os ilustradores, temos Rags Morales, Patrick Gleason e Ethan van Sciver.
Os comentários dos leitores na Amazon são negativos quanto à edição.  Muitos reclamam que o livro é colado, e não costurado, o que dificulta abrir amplamente o volume.  Outros reclamam que não há “extras” (esboços, entrevistas etc.)
O fato de o volume ser colado não me incomodou até agora.  Dá para abrir bem o livro, e as folhas não estão ameaçando cair.  A falta de extras é mesmo um pouco decepcionante, mas não prejudica a edição como um todo.

No geral, vale a pena.

Para maiores informações sobre toda a confusa história do Gavião Negro, recomendo que consultem o verbete em inglês da Wikipedia e a DC Comics Database, ambas inestimáveis na redação deste texto.

sábado, 6 de julho de 2013

Wally Wood - um favorito pessoal

Weird Science n°9
Setembro/outubro de 1951

Uma declaração do mestre ilustrador Al Williamson resume tudo o que eu gostaria de dizer sobre Wally Wood:

Eu conheci pessoas que adoravam o trabalho de Frazetta, pessoas que não gostavam de seu trabalho.  Eu conheci pessoas que adoravam o trabalho de Foster, eu conheci pessoas que não achavam que ele fosse tão bom.  O mesmo em relação ao trabalho de Raymond, o mesmo em relação a outras pessoas.  Acho que nunca conheci alguém que tenha dito que não gostava do trabalho de Wally Wood ou que ele não era tão bom assim.  Eu nunca ouvi isso - tudo o que eu já ouvi é que ele era ótimo.  Eu acho que ele era um dos poucos, senão o único, artista que eu conheço do qual você pode dizer isso.
(Citado em Wally Wood - Sketchbook, p.  112.  Tradução minha.)




Wallace "Wally" Wood teve uma carreira versátil: trabalhou nos tempos áureos da revista Mad; esteve na Marvel, onde desenhou alguns dos primeiros números de Demolidor, escritos por Stan Lee - inclusive o histórico n°7 (abril de 1964), onde o herói inaugurou o uniforme vermelho que se mantém até hoje.

Ilustrou diversas revistas clássicas da EC Comics, como Shock SuspenStories, Weird Science, Two-Fisted Tales e Tales from the Crypt, e as publicações similares da Warren: Eerie e Creepy.   Entre outras honrarias, teve seu nome lançado (postumamente) no Jack Kirby Hall of Fame e no Will Eisner Award Hall of Fame.  

O inigualável Frank Frazetta - possivelmente o maior ilustrador do Século XX - conheceu Wally e chegou a criar uma capa para a revista Famous Funnies em estilo "woodiano", numa declarada homenagem ao colega.
Homenagem de um mestre a outro.
Capa de Frank Frazetta no estilo de Wally Wood.
Famous Funnies n°213
Setembro de 1954




Wally era um grande sujeito, muito divertido.  Minha capa de Buck Rogers é típica de Wood... Uma homenagem.
(Frank Frazetta, citado em Wally Wood - Sketchbook, p.  87.  Tradução livre minha).







Wood tinha uma habilidade e uma criatividade extraordinárias para imaginar espaçonaves, equipamentos e criaturas alienígenas.  Quando eu penso em criar algum desenho num estilo de ficção científica "retrô", é nele que busco inspiração.  

Capa de Wally Wood para Weird Science n. 20
Julho/agosto de 1953


Os últimos anos de Wally não foram fáceis e incluíram crises de alcoolismo, depressão, problemas renais e um AVC que prejudicou a visão em um dos olhos.  Poucos dias depois de receber a notícia de que seus rins estavam trabalhando a apenas 10% de sua capacidade, Wally matou-se com um tiro.  Tinha apenas 54 anos.

Existe uma boa biografia de Wood: Wally's World - The brilliant life and tragic death of Wally Wood, the world's second-best comic book artist, de Steve Starger e J. David Spurlock.  
O subtítulo se refere ao artista como o "segundo melhor" do mundo, e o motivo é explicado na obra: existem vários fatores a considerar ao estabelecer um ranking - inclusive o gosto pessoal - mas  quase todo mundo concorda que Wally Wood merece estar entre os primeiros.  

Eu tenho um carinho especial pela obra de ficção científica desse grande artista.  Outros ilustradores talvez tivessem melhor técnica, ou seja lá o que for, mas Wally era simplesmente imbatível.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

As armaduras do Homem de Ferro

Tony Stark, sempre na vanguarda da tecnologia, não deixa sua armadura ficar desatualizada.
Cada fã tem sua armadura favorita, mas eu, como saudosista que sou, fico com as mais antigas.
Tentarei mostrar algumas das mais interessantes e importantes.
Esta foi onde tudo começou: a armadura cinzenta, construída por Stark e Ho Yinsen no cativeiro.

Tales of Suspense n. 39 
(Março de1963).
Essa armadura improvisada não podia mesmo durar muito, e foi substituída logo no número seguinte da revista por uma versão melhor e mais bonita: a armadura dourada.
Tales of Suspense n. 40
(Abril de 1963)
Os avanços tecnológicos são mesmo muito rápidos.  Em dezembro de 1963, Tony Stark muda novamente de armadura (a terceira naquele ano).  O novo modelo assume, em linhas gerais, as características que se mantêm até hoje:


Tales of Suspense n. 48
(Dezembro de 1963)
No ano seguinte, o cabeça-de-lata mudou seu capacete e inaugurou o visual que eu considero o "clássico".

Tales of Suspense n. 54
(Junho de 1964)


A partir daí, as mudanças foram mais sutis... ao menos até 1985, quando a revista Iron Man chega ao número 200 e surge a armadura vermelha e prateada (Mk VII), também conhecida como "Centurião Prateado".
Iron Man n. 200
(Novembro de 1985)

Não gostei muito dessa armadura, mas enfim...
Depois, surgiu a Mk. VIII, retomando o padrão vermelho e amarelo (ou vermelho e dourado, se preferirem).
Iron Man n. 231
(Junho de 1988).
Muitas outras armaduras foram utilizadas posteriormente, mas uma que chamou muito a atenção dos fãs é a Mk. XXX, de 2005,  que surgiu no arco de histórias "Extremis", escrito por Warren Ellis e ilustrado por Adi Granov.  Esse arco foi uma das maiores influências no roteiro do filme Homem de Ferro 3.
Iron Man n. 4
(Março de 2005)
Tony Stark estava gravemente ferido e precisou utilizar a fórmula Extremis para sobreviver.  Essa fórmula havia sido desenvolvida numa tentativa de criar super-soldados (como já havia ocorrido com o Capitão América), e causava modificações radicais no organismo.  Stark passou a ser capaz de  interagir com a armadura utilizando apenas o pensamento - inclusive para vesti-la sem precisar se mexer.  

Esse assunto poderia levar vários dias, abordando também outras armaduras: espacial, submarina, ártica, stealh, modular e a de telepresença neuromimética... mas isso fica para outra ocasião.